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por Mariana Avelar

Compareci à feira com uma missão bem específica: compreender as principais oportunidades para aprofundamento da parceria Brasil-Alemanha no setor de infraestrutura, além de avaliar perspectivas multilaterais para o setor, no contexto da União Europeia.

A delegação brasileira assumiu grande protagonismo na maior feira industrial do mundo: o Brasil foi o primeiro país homenageado pela Hannover Messe em 1980, e regressou neste ano como parceiro oficial da feira. A presença do presidente Lula (ao lado de diversos Ministros e membros do primeiro escalão do governo) na abertura da feira e no 42º Encontro Econômico Brasil-Alemanha foi marcada por anúncios estratégicos, de políticas públicas para investimentos e reindustrialização, além de alguns recados importantes sobre os termos em que as parcerias com países europeus poderão ocorrer.

Considerando esse recorte, conto aqui, em três atos, o que vi de melhor na Hannover Messe.

 

  1. O molho: excelência diplomática made in Brazil e cooperação de excelência made in Germany

A brasilidade está em alta e o nosso “molho” não passou despercebido na Hannover Messe.

Os stands da Infraero, Pecém, WEG e VALE atraíram multidões interessadas em projetos que têm revolucionado as fronteiras da indústria e da infraestrutura brasileira. Estavam também presentes diversas startups e instituições do ecossistema de inovação, com pautas concretas para parceria e ações de transferência tecnológica em prol do desenvolvimento brasileiro.

Com um espaço de 2.700 m², o Pavilhão Brasileiro contou com 140 expositores sob a liderança da Agência de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil). Já a representação dos interesses nacionais foi brilhantemente conduzida por nosso corpo diplomático: merece aplausos a condução de pautas estratégicas pelo Itamaraty. A inteligência diplomática tocou em pontos delicados como a busca pela ratificação definitiva do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, a redução de barreiras às relações bilaterais com a Alemanha (o que perpassa pela negociação de um acordo de não bitributação) e abrange o enfrentamento direto de comportamentos protecionistas europeus, muitas vezes travestidos de barreiras regulatórias, como é o caso da proposta de restrição ao uso de biodiesel de soja e palma na União Europeia.

A interação diplomática teve como um dos pontos altos o painel “UE–Mercosul: Destravando os Benefícios da Parceria e do Comércio”, com a presença da Vice-Presidente Executiva da AHK São Paulo, Barbara Konner, do Embaixador do Brasil junto à União Europeia, Pedro Miguel da Costa e Silva, do Presidente da Comissão de Comércio Internacional do Parlamento Europeu, Bernd Lange, do Diretor-Geral Adjunto para Comércio e Segurança Econômica da Comissão Europeia, Denis Redonnet, e do Representante da União Europeia em Berlim, Guillaume Durand. As discussões evidenciaram o potencial de pautar o livre comércio com base em regras claras, concretizando uma oportunidade de fortalecer o multilateralismo em tempos de grande tensão geopolítica. Denis Redonnet apontou que “de fato, o protecionismo está em ascensão. Mais de dois terços das empresas alemãs relatam o aumento de barreiras no exterior. Um dos pontos positivos dentro desse universo é, justamente, o Mercosul, que se destaca como uma região na qual as empresas alemãs apresentam uma perspectiva mais positiva”. Do lado brasileiro, o Embaixador Costa e Silva ressaltou oportunidades geradas pela redução de tarifas e pelo incremento da previsibilidade para o comércio a partir do conjunto de regras estabelecido pelo Acordo, “com um sinal político muito claro e forte a favor do diálogo, da cooperação e do trabalho conjunto”.

Ficou também evidenciado que a cooperação com a Alemanha tem sido viabilizada sobremaneira pela atuação de instituições-chave como a Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) , pelas Câmaras de Comércio Brasil-Alemanha (AHK-Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre) e algumas agências estaduais, com destaque especial para a NRW.Global Business. Também merecem ser mencionados alguns mecanismos que facilitam o fluxo de exportações, como é o caso das garantias de crédito de exportação do governo federal alemão (Hermes Cover).

Impossível também ignorar o soft power brasileiro como indutor de boas relações comerciais e culturais entre Brasil e Alemanha e a prova disso foi o show de João Gomes na noite de quarta-feira: Hannover foi transportada para o interior de Pernambuco, em um embalo que só quem tem a oportunidade de ouvir o melhor do Brasil pode sentir.

 

  1. Descarbonização e transição energética: da pauta de sustentabilidade à dimensão geopolítica

Imaginem aqui a insólita cena: presidente Lula abre o pavilhão brasileiro na feira e, na visita aos expositores, sobe na boleia de um caminhão Mercedes-Benz para anunciar o resultado de um teste-desafio sobre a performance e vantajosidade ambiental do biodiesel brasileiro (mais especificamente o BeVant, desenvolvido pela BE8).

A performance do BeVant equiparou-se à do diesel europeu, e no quesito ambiental, ganhou de goleada, com uma redução de 99% de emissão de gases de efeito estufa do tanque à roda e de 63% , considerando-se toda a cadeia de produção. Podemos contar o feito como revanche contra o 7x1?

Brincadeiras à parte, o posicionamento carrega uma mensagem importante: o mapa do caminho da descarbonização (ou desfossilização, como preferem alguns cientistas) passa pelo uso do etanol e do biodiesel. O posicionamento, como adiantei, enfrenta diretamente o aceno protecionista da União Europeia contra os biocombustíveis brasileiros, e demonstra como essa já consagrada política de diversificação reduz os efeitos deletérios de crises do petróleo.

A esse respeito, o Ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, apontou que os caminhos para cooperação em combustíveis sustentáveis de aviação e biocombustíveis avançados com a Europa se alicerçam em um êxito já concretizado no mercado interno, tendo apontado que “com o E30, zeramos a necessidade de importar gasolina. Já produzimos 80% do diesel que consumimos internamente e estamos na rota da autossuficiência total”.

A mensagem de que o Brasil tem se consolidado como polo de soluções para a transição verde em diversas frentes foi evidenciada em diversos painéis da feira, como o German-Brazilian Energy Day, e também no painel sobre os avanços do corredor verde entre os portos de Pecém, Rotterdam e Duisburgo, voltado à exportação de hidrogênio de baixo carbono para centros de consumo industrial europeus.

Nesse último, foi ressaltado o papel central dos portos na transição energética: mais que meros hubs logísticos, os portos passam a fazer parte do ecossistema de moléculas verdes, facilitando a integração de diversos elos da cadeia produtiva. Nas palavras de Fábio Grandchamp, vice-presidente executivo do Complexo do Pecém, “o hidrogênio verde produzido no Complexo do Pecém não é apenas competitivo em termos de custo — graças à abundância de energias renováveis e à zona de livre comércio. Ele traz consigo algo igualmente importante: uma plataforma industrial consolidada e um porto em pleno funcionamento [sendo que ] a rota para a Europa é curta. Sem pontos de estrangulamento. Sem zonas de risco”. Além disso, as soluções de cadeia de suprimento são ali projetadas para permitir seu crescimento ao longo do tempo.

É preciso ressaltar que o potencial do hidrogênio vai além do atendimento a demandas externas. Fernanda Delgado, presidente da ABIHV destacou em suas falas que estamos caminhando para a consolidação de oportunidades concretas para integração do hidrogênio verde e da amônia verde nas cadeias produtivas brasileiras e parte relevante desse caminho passa também por parcerias com a indústria alemã e por líderes da infraestrutura europeia.

É o caso da (i) inauguração de nova planta da White Martins em São Paulo, com produção em escala industrial, a funcionar como ensaio para integração de eletrolisadores à rede elétrica nacional, (ii) do desenvolvimento do Projeto HYDEAS (parceria entre a Vale e a Green Energy Park para viabilizar a rota do aço verde) e (iii) do avanço do projeto de Morro Pintado-RN, com obtenção de licença ambiental prévia para um projeto de produção de hidrogênio verde, de amônia ou e-metanol em larga escala, com investimento estimado em R$ 12 bilhões.

O projeto de Morro Pintado foi um dos grandes destaques da feira, com assinatura de um contrato de parceria no âmbito do International Hydrogen Ramp-up Programme (H2Uppp) pelo consórcio formado pela DB Engineering & Consulting, ThyssenKrupp Uhde, BGE Brazil Green Energy e Green Investors AG.

O programa H2Uppp é conduzido pela Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ), com financiamento do Ministério Federal de Economia e Energia da Alemanha e da iniciativa europeia Global Gateway, reforçando o alinhamento estratégico entre Brasil e Europa na agenda de transição energética.

Conforme divulgado em reportagem de Rafael Balago para a Exame, o projeto Morro Pintado prevê a instalação de um complexo integrado de geração de energia renovável e produção de combustíveis de baixo carbono cuja capacidade de geração pode atingir 1.400 MW em energia eólica e solar. A partir dessas fontes, a planta de Morro Pintado poderá produzir cerca de 80 mil toneladas anuais de hidrogênio de baixo carbono. A partir do hidrogênio, o projeto buscará produzir amônia verde, e-metanol e, em uma segunda fase, ureia verde, somando 438 mil toneladas anuais de derivados.

A parceria busca assim fortalecer o papel do Brasil como um hub global de moléculas verdes e auxiliando no cumprimento da meta de zero emissões líquidas para a frota da Deutsche Bahn até 2040. Há também, do lado brasileiro, o desejo de reduzir a dependência nacional da importação de fertilizantes. Conforme divulgado pela ApexBrasil, o Brasil atualmente importa mais de 85% dos fertilizantes que consome, sendo 36% da ureia proveniente do Oriente Médio e há objetivo de reduzir essa dependência para 50% até 2050, com base no Plano Nacional de Fertilizantes (PNF 2050).

 

  1. A Nova Indústria Brasil e as possibilidades de friendshoring

Diversos painéis apresentados durante a feira destacaram aspectos da atual política de reindustrialização brasileira, a Nova Indústria Brasil (NIB), com foco na digitalização e potencial industrial dos recursos minerais e energia renovável brasileira para construção de cadeias produtivas mais sustentáveis e competitivas.

A proposta pode favorecer a realocação de determinados processos de produção no Brasil em prática conhecida como friendshoring, a qual casa com a necessidade de endereçar as incertezas geopolíticas do nosso tempo, assegurando maior estabilidade operacional para as cadeias de suprimento ao mesmo tempo que fomenta o desenvolvimento dos países parceiros.

Foi destacado de forma reiterada o potencial de beneficiamento de minerais críticos no Brasil, os quais são essenciais para a transição energética e para a transformação industrial, considerando sua oferta concentrada em poucos países e sua essencialidade para aplicação em tecnologias como baterias, energias renováveis e sistemas digitais.

Nessa toada, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, ressaltou a importância geopolítica desses minerais, tendo celebrado a assinatura de acordos bilaterais com Espanha e Alemanha com objetivo de implementar a cooperação no desenvolvimento econômico, tecnológico e social associado às respectivas cadeias de valor.

Nem tudo na feira foi perfeito. O combo de greves da Lufthansa e DB tornou a vida dos participantes mais dura. O tamanho colossal e grande oferta de programação eram de dar FOMO em qualquer um que respire. Há sempre o receio de que memorandos de entendimento e compromissos sejam mero castelo de cartas. Contudo, é inegável que a representação brasileira jogou bonito. Deixamos a mensagem e o desejo de nos estabelecer com um parceiro confiável para cooperação internacional.  

Para que isso de fato aconteça, precisamos continuar a articulação entre setores público e privado, em um ambiente institucional adequado, provido da devida segurança jurídica, e que haja um esforço contínuo de alinhamento regulatório entre os dois lados do Atlântico.

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